Publicado em 07/01/2026
Por: Valentina Guimarães
O surpreendente ataque militar norte-americano na Venezuela, marcado por bombardeios, confrontos e a detenção do presidente Nicolás Maduro, desencadeou um dos episódios mais intensos de intervenção externa na América Latina dos últimos anos. Além disso, reacendeu debates sobre intervenções externas, soberania nacional e o uso da força como instrumento político, temas que, longe de serem novos, atravessam a história das relações internacionais e das ideologias de poder analisadas por diferentes correntes do pensamento histórico.
A escalada de tensão envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela insere-se em um histórico de disputas políticas e ideológicas que marcaram o país ao longo das últimas décadas, especialmente a partir do período iniciado com a ascensão de Hugo Chávez ao poder. Esse contexto é analisado em profundidade na obra “A Era Chávez e a Venezuela no Tempo Presente”, organizado pelos professores Karl Schurster e Rafael Araújo, docentes da Universidade de Pernambuco (UPE) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), respectivamente, que serve de referência para a compreensão dos acontecimentos atuais.
Diante desse turbilhão de eventos, o livre-docente em História, Karl Schurster, concedeu uma entrevista à Universidade de Pernambuco, na qual expõe sua visão sobre os desdobramentos e como os acontecimentos se relacionam com suas pesquisas acadêmicas.
Como é que se comporta o conflito no cenário da América Latina como um todo?
Karl Schurster – O conflito em torno da retirada de Nicolás Maduro e da intervenção dos Estados Unidos não pode ser visto como um episódio isolado na Venezuela; ele está reconfigurando toda a dinâmica política regional, com implicações profundas e divergentes para países da América Latina. Dentro da Venezuela, a crise mostra que o chavismo já não é um bloco monolítico há tempos. O cenário aponta para uma fragmentação política entre setores pragmáticos, como o de Delcy Rodríguez que aceita algum tipo de negociação com os EUA, e alas militaristas como a representada por Diosdado Cabello, que vê qualquer interação com Washington como “traición a la patria”. Essa disputa interna expressa tensões mais amplas entre cooperação e confrontação nas relações internacionais na região.
A ação dos EUA, uma operação militar para capturar Maduro, é percebida de maneiras muito diferentes ao longo do continente. Para alguns governos de direita, como em Argentina ou Chile, o fim do regime chavista é celebrado como uma derrota aos chamados “narco-autoritarismos”. Porém, muitos outros governos latino-americanos, inclusive no Brasil ou México, apontam que esta intervenção viola a soberania e o direito internacional, evocando históricas intervenções norte-americanas no continente.
O contexto regional é percebido por críticos como um retorno a uma política de hegemonia norte-americana que lembra antigas versões da Doutrina Monroe, uma postura em que os EUA se vêem como “xerife” do hemisfério, com direito de intervir militarmente em assuntos internos de outros países. Esta confrontação está sendo interpretada internacionalmente como um precedente perigoso, que outros Estados, como Rússia e China, também podem seguir com suas próprias intervenções em suas regiões de influência.
Não é apenas um embate bilateral (EUA × Venezuela); é um choque de visões de ordem internacional. Há um debate intenso entre quem defende a intervenção como um mal necessário para derrubar regimes autoritários e quem vê nela um ato de imperialismo que abre portas para instabilidade e militarização em toda a América Latina, com riscos de reforçar narrativas nacionalistas e repressivas dentro dos próprios países latino-americanos. O impacto simbólico desse conflito se desdobra em países vizinhos que já enfrentam crises internas, desde debates sobre imigração, economia, segurança até a própria legitimidade dos regimes políticos. Não é apenas uma “nova era” para a Venezuela, mas um momento de redefinição de alianças, hegemonias regionais e do papel dos EUA na América Latina contemporânea.
No cenário geopolítico mundial atual, com guerras como Ucrânia × Rússia e Israel × Hamas, como você enxerga os próximos períodos na Venezuela com essa sucessão e intervenção norte-americana?
Karl Schurster - A crise venezuelana não acontece num vácuo: ela está sendo moldada por uma nova fase de disputa global entre grandes potências, onde conflitos simultâneos, como na Ucrânia e no Oriente Médio, mostram que a ordem mundial está fragmentada e marcada por intervenções que desafiam regras históricas de soberania e multilateralismo.
2026 aponta para um mundo no qual as grandes potências normalizaram respostas agressivas a crises internas em outras nações, sob justificativas variadas, combate a regimes ditatoriais, luta contra terrorismo, narcotráfico ou proteção de interesses estratégicos. A ação dos EUA na Venezuela, com operação militar para capturar Nicolás Maduro, representa diretamente isso: um país intervindo diretamente no território de outro sob uma narrativa de segurança, mas com efeitos que ultrapassam a região.
No tabuleiro global, isso reverbera com as tensões existentes. Enquanto a guerra na Ucrânia coloca Rússia e Europa em um impasse de força e resistência, e o conflito Israel e Hamas realinha prioridades estratégicas no Oriente Médio, a intervenção nos trópicos mostra que os EUA, sob a liderança atual, estão dispostos a exercer seu poder militar fora de alianças tradicionais. Isso é visto por muitos como um retrocesso do multilateralismo, reforçando lógicas de domínio unilateral e rivalidade entre grandes potências.
No médio prazo, a Venezuela enfrenta um momento de enorme incerteza interna, mesmo com um novo governo interino proclamado, porque a intervenção estrangeira fragiliza a confiança em instituições domésticas e cria ressentimentos que podem alimentar resistência, instabilidade e um ciclo prolongado de crise política e social. Além disso, essa intervenção expõe disputas geopolíticas maiores: por exemplo, a alteração das tradicionais relações de petróleo com a China, que era um dos principais compradores e apoiadores de Caracas, para uma influência econômica e energética estadunidense, o que desalinha blocos de poder na região e no mundo.
Internacionalmente, a reação não é nem será uniforme. A Rússia, por exemplo, condenou a intervenção, posicionando-se ao lado da Venezuela como um ato de defesa da soberania e criticando o que chama de “neocolonialismo” americano; isso integra uma narrativa maior de rivalidade entre blocos de poder global.
Como você tem trabalhado sobre o assunto ou como pretende abordar suas pesquisas, dentro da Universidade de Pernambuco, diante de tudo o que vem acontecendo na Venezuela?
Karl Schurster - Atualmente coordeno o Laboratório de Estudos do Tempo Presente na UPE, onde temos trabalhado de forma sistemática com guerras, conflitos contemporâneos, novas direitas, radicalizações políticas e estudos sobre genocídio. A Venezuela, nesse sentido, sempre foi um caso central para pensar os limites e as transformações das experiências políticas latino-americanas no século XXI.
Esse percurso vem de longe. Em 2015, ao lado do professor Rafael Araújo (UERJ), publicamos “A era Chávez e a Venezuela no Tempo Presente”, um livro que se tornou uma referência ao propor um balanço crítico dos primeiros dez anos do chavismo. Antes disso, organizei, com o professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, o livro “Velhas e Novas Direitas: atualidade de uma polêmica”, que já apontava para a reconfiguração global das direitas e das formas de autoritarismo, um debate que hoje se mostra ainda mais atual.
A própria Editora da UPE também publicou a tese do Francisco Carlos, “O concerto das nações: conservadores, reacionários e fascistas (1833-1945)”, que é fundamental para compreender como se estruturou essa atual (des)ordem mundial, marcada por intervenções, guerras regionais e erosão das normas multilaterais. Esse quadro teórico é indispensável para entender o que acontece hoje na Venezuela. No momento, nosso livro sobre a Venezuela está sendo preparado para uma nova edição profundamente ampliada. Agora, para além do governo Chávez, o foco será analisar o governo Maduro, suas estratégias de poder, seus impasses internos e, sobretudo, seu impacto como “herança” de um chavismo que acabou por reorientar os rumos da chamada “onda vermelha” na América do Sul.
O projeto cresceu de tal forma que decidimos dividi-lo em dois volumes, estamos falando de cerca de 900 páginas, que serão publicados ao longo deste ano, novamente em parceria com a Editora da UPE, que hoje desponta como uma das editoras universitárias mais atentas e atuais no debate acadêmico brasileiro. Meu trabalho sobre a Venezuela hoje não é apenas uma análise de um caso nacional, mas uma tentativa de compreender como autoritarismo, intervenção externa, crise de soberania e rearranjos geopolíticos globais se entrelaçam.
Para além desses livros, eu destacaria ainda dois projetos coletivos de grande fôlego que dialogam diretamente com os temas sensíveis do presente. Em parceria com o professor Francisco Carlos Teixeira da Silva (UFRJ), coordenamos a publicação, em código aberto, do "Novo Dicionário Crítico do Pensamento das Novas Direitas" e do "Dicionário Crítico dos Fascismos". São obras pensadas desde o início para circulação ampla, pública e internacional, reunindo pesquisadores de diferentes países e tradições intelectuais, com o objetivo de oferecer instrumentos conceituais rigorosos para compreender fenômenos como autoritarismo, extremismo político, radicalização ideológica e violência de Estado no mundo contemporâneo, mais uma vez em parceria com a EDUPE.
A Universidade de Pernambuco segue acompanhando os desdobramentos do cenário internacional por meio de pesquisas, debates e produções acadêmicas. Os livros mencionados ao longo da entrevista estão disponíveis para consulta no site da Editora da Universidade de Pernambuco (EDUPE): edupe.upe.br